segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Desconstruindo a poesia dos passarinhos.


A minha reflexão hoje começou cedo, logo ao acordar. Como de costume, estava tudo muito calmo por aqui... exceto a cantoria. Esta era maior até que o barulho do mar, que costuma ser absoluto! As músicas regionais contrastavam com a mudez daquela manhã. Talvez o silêncio coletivo fosse proposital, mantido em respeito aos artistas que gentilmente se apresentavam! Aliás, todo sábado costuma ser assim: “musical”! Isso graças a sinfonia de pardais, bem-te-vis, sabiás... afinadíssimos! Fiquei ali, solitário e mudo.

Qual seria a razão pra tanta alegria? Aliás, se tratava só de alegria? Pensei nos motivos que levam um pássaro a cantar assim, em tom de desabafo. Lembrei de imediato da frase que as pessoas dizem quando estão enfadadas por seus problemas: “queria ser como um passarinho, livre, leve e solto”... pouco tempo depois eu já estava fazendo uma análise profunda sobre a vida das aves que cantarolavam na minha janela! E foi aí que percebi o quanto as aparências realmente enganam.

Na verdade, vida de passarinho não é nada fácil! Franzinos, solitários, desprotegidos e eternamente perseguidos por suas belezas e  talentos natos. Precisam estar eternamente vigilantes, apostos. Tem o estilingue, o gato, o garoto e a gaiola que toda hora ameaçam sua paz! Não podem distrair, vigiar é preciso. Até no animado banho das lavadeiras existe uma certa tensão, não pode descuidar. Pra dormir, amar, alimentar e criar os filhos, precisam buscar o galho mais alto, aquele mesmo onde a pedra não chega, onde o gato não se aventura, o que o garoto não se arrisca e a repugnante arapuca não alcança!

Se quiserem casa pra morar, eles mesmos precisam construir. Cômodo a cômodo, fio a fio... taí o joão de barro que não de deixa mentir. Tem mais, precisa ser um ninho resistente, capaz de enfrentar a chuva, o vento, o sol forte, a neve, o furacão... penso que se pássaros fossem como gente, se perdessem tempo analisando suas fragilidades perante o tempo, talvez não encontrassem estímulo pra continuar tentando. Mas eles não pensam, apenas fazem!

Até comer é um processo complicado. Não existe supermercado pra passarinho! Muitas vezes com asinhas minúsculas, voam muitos quilômetros ou beijam muitas flores em busca desse alimento. Mesmo com fome ainda tem que ser mais esperto que o inseto, senão não come! E se não come morre. E se morre, o rouxinol leva com ele a canção mais espontânea que existe...

Certamente existirá muito mais que uma simples beleza previsível no cantar de um canário, por exemplo. Talvez eles todos cantem mesmo pra buscar forças para cruzar o céu de mais um dia. Ou podem esconder algo bem maior.

Quem sabe assim, ignorando o que dói e faz sofrer, exatamente como nós, possam “cantar, quando a dor torturar”... para que todos que os ouvirem possam supor que são felizes da forma - poética - tal qual um dia se imaginou!

Pássaros cantam em resposta as pedradas que levam!


Definitivamente, acho que se as pessoas parassem para pensar sobre isso, desejariam mesmo permanecer onde estão, cada um com as asas que lhe cabem, contudo, reclamando menos e cantando um pouco mais!


Apolinário Júnior.
Música: “Meu canário”
Intérprete: Marisa Monte.


Outras palavras... 

Queridos e queridas... passei o fim de semana revisitando algumas coisas aqui no blog... textos antigos, postagens que apesar do tempo (um ano basicamente) percebo que não perderam sua vitalidade. Decidi então resgatar algumas delas nesse mês de agosto, que tal? A partir de hoje, qualquer hora dessas cês podem se deparar com essa, digamos, "segunda chance" aqui no 'Contatos' e espero que conhecer ou relembrar esses momentos seja recebido como uma boa idéia.

...

O texto "Desconstruindo a poesia dos passarinhos" fora postado originalmente em julho/2009. O estou trazendo novamente, revisado, mas fiel as sensações que me levaram a escrevê-lo naquela manhã...

Beijo a todos e uma linda semana... cantando sempre!
Jr Vilanova.

10 comentários:

Weslley Fontenele disse...

Adorei!
Minha mãe então quando era criança já destruiu muita casa de João de Barro! rsrs.
Weslley.

Sampaio disse...

Reconstruindo a poesia dos pássaros!



Eu sempre quis aprender a voar.

Pousar quando bem quisesse.

Planar e ver o mar.

Ter uma casa na árvore.

Cantar afinado.

Aninhar o bem.

Cagar do alto em quem faz mal.

Ser pássaro pequeno e ligeiro.

e - pra não perder a rima -

viver feliz nesse quintal.

Cláudia disse...

Um olhar sempreatento e uma mente aberta para as coisas simples da vida, sempre saem boas histórias!!!
Bom dia!!!!!
Bjs

CRISTIANE disse...

Coisa mais linda! Viu que sua inspiração despertou outra? (Lindo texto do Thiago também!

Me emocionou muito o texto de hoje... sensibilidade é uma dádiva!

Mil beijos.
Cristiane

Josianne disse...

OOh, que bonitinho esse post!!
Pois é, vida de passarinho não deve ser nada fácil, cada dia que passa percebo que ninguém nesse mundo se salva dos perigos da vida, nem mesmo os simples e puros...PASSARINHOS!!!

Beijooos

Uelton Gomes disse...

Bela reflexão nessa segunda, todos tem que ter a determinação de um passarinho

Abraços

lis disse...

Nossa Junior voce está tão sensível, escrevendo poesias tão lindas ,chuvas , passarinhos , estou encantada!
gostei dessa reflexão , a gente sempre pensa em ser um passarinho pra sair por aí , voando alto talvez fugindo dos nossos problemas sem imaginar quantos outros teríamos pela frente! e eles são tão lindos, tão frágeis.
Também tenho visitas na janela e já publiquei uma lindeza colhida aqui bem devagarinho pra nao afugentá-lo , porque sao ariscos e desconfiados rs
e o canto é suave , eu adoro.
Ótima ideia postar algo que nao vi ainda rs
obrigada pelo lindo texto e dias felizes pra voce assim cantando...
abraços

carol sakurá disse...

Olá,querido!
Eu sempre fiz destes pequenos,meus grandes amigos.
"...eles passarão e eu passarinho."Mário Quintana

Beijo!

Sandro Omena disse...

Popó,
Querido e amado! Adoro sua sensibilidade, sabe disso! Muito bom viver e, principalemnte, com prazer. Vejo também que as pessoas reclamam muito da vida, de modo que é necesário pensar e repensar sobre ela. Com isso, o cantar de cada ser humano aumenta quando a descoberta dos passáros é feita por cada um de nós. Lindo junior. Amei.
Grande beijo

Chica disse...

Adorei o texto,cheio de reflexões e encantamentos.abração e acho uma boa idéia republicar, pois eu não conhecia!chica

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