quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"CARNAVAL E PERFUME"


"Depois de dois meses longe do Brasil, voltei em plena segunda-feira de Carnaval, como um velho sátiro atrasado. Quando saí de NY, alguns amigos me julgaram um folião que corria para a maior festa do mundo, disposto a aproveitar pelo menos os dois últimos dias.
– Olha que você já não tem idade pra pular o Carnaval – me provocou um.
– Pular? Talvez nem mesmo ficar olhando aquelas mulheres lindas. Cuidado com a pressão arterial – palpitou outro.
Não adiantou eu dizer que a viagem nessa época era apenas uma coincidência, que eu já não pulo Carnaval há pelo menos cinqüenta anos e que, mesmo na época em que pulava, os pulos eram tímidos, pois nunca tive jeito pra isso, paulista que sou, do tempo em que o Cine Odeon, em São Paulo, anunciava os bailes carnavalescos como quatro dias e quatro noites alucinantes. Do tempo em que meu pai, quando passava na porta do cinema e via essa frase pintada na fachada, em imensas letras vermelhas, adornadas pelo desenho de lindas e rechonchudas mulheres seminuas, comentava que aquilo tudo era uma pouca-vergonha e mandava as crianças presentes virarem os olhos para o outro lado, o que fazíamos, ainda que sempre arriscando um olho.

Confesso que desta vez, cansado que estava da viagem, nem mesmo o desfile de segunda-feira eu vi com atenção, já que a Mangueira se apresentou no domingo. Sou mangueirense sim, como sou flamenguista no Rio e corintiano em São Paulo, não por tradição familiar ou vocação natural, mas por achar que essas instituições, digamos assim, refletem o que há de mais sagradamente popular na história do nosso país. E, torcendo por elas, acredito que de alguma maneira estou dando um abraço carinhoso e sincero nesse povão sofrido e obstinado.

Como todo mundo sabe, nos Estados Unidos o Carnaval não existe, ainda que em NY a comunidade brasileira faça seus batuques na Broadway, entre as ruas 44 e 46. E, como não existe como festa, pouco existe como tema de conversa. Por lá, o casamento de Donald Trump e o lançamento, entre vários produtos, do perfume que leva o nome dele têm sido o assunto mais corriqueiro neste momento.

– O perfume do Trump tem cheiro de dinheiro – diz alguém.

– Mas dinheiro tem mau cheiro – responde um outro.

– Só quando é pouco – devolve o primeiro. – Façam o teste. Nota de 1 dólar não tem o mesmo cheiro da nota de 100.

– O cheiro é de sucesso – observa um terceiro que não esconde a admiração que sente pelo extravagante miliardário. – Não leram o que ele disse, que o homem que usar esse perfume vai ter a mulher – ou o homem – que desejar?

– Já ouvi dizer que o Roberto Justus vai também lançar um com o nome dele, na trilha do seu inspirador. Afinal, ele é o Trump brasileiro – dispara uma paulista recém-chegada do nosso país.

– O Trump brasileiro é o Silvio Santos – comenta um jovem carioca, que está fazendo um curso de cinema na New York Film Academy.

– Três SSS. Silvio Santos Sucesso – observa alguém.

– Quatro – corrige o divertido carioca. – Tá esquecendo que o cifrão é um S cortado ao meio?

E, por causa desse tema, falou-se em perfume por mais uma hora, o que eu considerei um desperdício, até porque o perfume mais vendido continua sendo o Chanel nº 5, criado em 1921, como um perfume de mulher com cheiro de mulher. Taí o segredo, pensei. Com o cheiro de mulher Coco Chanel conseguiu o S do sucesso e o $ do dinheiro, sem precisar esfregar o nariz nas notas de 100 dólares. E mudamos de assunto.

De qualquer modo, na minha viagem de volta, entre um cochilo e outro, fiquei pensando em Carnaval e perfume. E imediatamente me ocorreu a marcha genial de João de Barro e Alcir Pires Vermelho, que Francisco Alves consagrou num longínquo Carnaval dos anos 40, uma época em que eu e minhas irmãs éramos obrigados a virar os olhos para não ver o que prometiam os quatro dias e quatro noites alucinantes da Sala Azul do Cine Odeon, em São Paulo. E cantarolei mentalmente:

"A sorrir você me apareceu
E as flores que você me deu
Guardei no cofre da recordação.
Porém depois você partiu
Pra muito longe e não voltou
E a saudade que ficou
Não quis abandonar meu coração.
A minha vida se resume,
Ó, Dama das Camélias,
Em duas flores sem perfume,
Ó, Dama das Camélias!"

Ah, os velhos Carnavais, assim como os velhos perfumes, continuam imbatíveis na memória daqueles que viram e sentiram sua beleza e sua fragrância. Nada contra os Carnavais de hoje. Nada contra Trump, Silvio e Justus. Nada contra o cheiro do dinheiro e do sucesso, que quase sempre chegam juntos. Mas eu fico com a Dama das Camélias e gosto de sentir o cheiro de mulher do Chanel nº 5."

Manoel Carlos.

Outras palavras...


Seguindo a proposta de feverio no Contatos, disponibilizo hoje uma crônica de Manoel Carlos, que fala um pouco de suas lembranças sobre a festa de carnaval! Espero que gostem.

Boa quarta-feira!
Jr Vilanova.

13 comentários:

CRISTIANE disse...

A escrita de Manoel Carlos proporciona uma deliciosa leitura! Queria mais!rs
Um beijo,
Cris.

Wanderley Elian Lima disse...

Olá amigo
Muito bom esse exto do Manoel Carlos, as lembranças de um carnaval, onde a alegria era a lei. Sem querer ser saudosista, mas sendo, pena que hoje a coisas perderam um pouco o sentido.
Bjux

Silvana Nunes .'. disse...

Boa tarde, amigo.
Gosto muito das narrativas do maneco, vou dar uma lida com calma.
Beijo

.Lis disse...

Ah, os bons carnavais de salão, quem nao viveu não pode imaginar ! rsrs
As cronicas de Manoel Carlos são adoráveis. Leio tudo dele, sobre ele, é uma escrita fácil, inteligente e simples. Concordo que a fragancia de um perfume e os velhos carnavais são marcas indeléveis ,pra ninguém esquecer mesmo rsrs
Estou programando uma postagem sobre o carnaval, mais precisamente sobre essa saudade.Prá semana.
Uma linda noite pra voce. Porque quero que a tarde acabe logo, está muito calor nessa terra de Arariboia rs
todos os abraços pra voce Júnior

Valéria disse...

Sabe, Manoel Carlos com essa crônica, me fez lembrar do tempo em que minha avó me contava suas histórias de carnaval...delícia de ler!

beijooO

Dalva disse...

Também gosto muito das crônicas de Manoel Carlos, e essa foi uma excelente escolha para combinar com o tema do blog em fevereiro! Sempre é bom lembrar dos tempos em que o carnaval tinha um charme diferente... bailes de salões e carnaval de rua de um jeito que, infelizmente, não se vê mais (pelo menos por aqui).

Bjs.

Josianne disse...

Nossa que legal esse texto! Manoel Carlos é tudo que há! Amei.
O Carnaval tem um gosto de poesia,né Ju? As cores, as tribos, as culturas...tudo é muito intenso e verdadeiro, tudo se mistura e ao mesmo tempo cada espaço possui sua identidade!
O meu Carnaval será o da leitura! kkkk
Beijooos!

carol sakurá disse...

Sempre deliciosos,os textos de Maneco.
Ainda mais lendo por aqui.
Bjs!

Silvana Nunes .'. disse...

Boa época essa retratada no texto de Maneca.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja um bom dia.
Saudações Florestais !

Fábio disse...

Ola estou visitando aqui e gostaria de aproveitar para convidar a conhecer meu trabalho através do blog Ecos em www.ecosdotelecoteco.blogspot.com Forte abraço e sucesso na proposta!!

Cláudia disse...

Quanta sensibilidade!!!!!Muito bommm!!!

Tão bom começar o carnaval assim com essa magia!!!

bjaum

Essência e Palavras disse...

É. O carnaval sempre acaba... Um dia acaba!!!
Lembranças existem... e nos fazem companhia!
Ainda bem!

CRISTIANE disse...

Leitura MUITO agradável! Manoel Carlos é fera! No texto ele fala de um saudosismo legal, sem culpas, sem peso nenhum.

Eu amei!
Cris.

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