quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

'A Bailarina e o Boêmio', de Guilherme Ramos

"Como fui feliz naquele fevereiro / pois tudo para mim era primeiro / primeira esperança / primeiro carnaval / primeiro amor criança..."


"Do meu bloco – eu, boêmio – em meio ao turbilhão de notas e acordes, de máscaras e fantasias, vou cantando, dançando e até pareço mais uma voz na multidão. Mas sei que não. E é na(s) sacada(s) do frevo que te vejo. E desejo. O bloco vai passando e eu, fingindo me esbaldar, vou parando... para (melhor) te olhar.

Em meio ao frevo, à marchinha, ao desejo e à minha (ausência de) companhia, não sobra espaço para tristeza (ou não deveria). Por isso mesmo eu vejo, no álcool, no fumo e nos beijos (dos outros), puro desejo, pra “fantasiar” de alegria: do fica-fica ao solta-solta, só não vai quem não bebeu! Mas eu me pergunto: o que quero EU? Dançar e dançar e dançar. Somente isso. É difícil acreditar? Dançar e dançar e dançar... e não ter a vergonha desse infeliz! Que já ficou com 12... 13... 14... 15... Nossa! Ele não vai parar? E ele ainda grita "É carnaval, é pegação!!!" Isso é o que mais me irrita. Alguém já te falou em amar? Hunf! Como? Se ele só pensa em... birita.

E eu – tão boêmio – festejo. Apenas. Cigarro no bico, copo na mão, samba no pé (e no coração) e com sorriso nos lábios, danço sob as janelas e as varandas dos sobrados e apartamentos que demarcam o território da folia. Mas há uma janela especial. Mora, ali, minha alegria? Quem é aquela menina? minha bailarina? Ela é tão leve, suspensa no ar, mas de olhar tão pesado, a me censurar... Não me escutaria uma só sílaba, se eu tentasse gritar. Quisera eu ser a bateria, que de rompante explodiria em frases sem parar: “Desce! Tum-tum-tum! Desce! Tum-tum-tum! Vem bailar! Vem bailar!” Mas... pra que sonhar? Se meu coração pudesse dizer o que senti ao te ver... Mas a banda passa. Cedo ou tarde, irá se afastar. Eu a terei de seguir, como um soldado, sem questionar. E você, nada fará. Que amorosa agonia: triangular-se-á eu, você e a folia.

E eu – ainda muito, muito boêmio – até penso em falar com você. Mas como, se sou apenas um homem na terra e você, um anjo do céu? Do alto, essa sua paz se contrapõe ao meu irresistível caos. Se opostos se atraem, por que não acontece comigo? Serei eu, doido varrido? Um cara perdido? Ou (aparente) pervertido, vagando (ébrio) sem parar? Pra você, (um) ser incapaz de amar. Minha alegria, seria sua tristeza e a sua estranheza, minha (pobre) alegoria.

Queria eu – apenas homem, quase nada boêmio – desfilar por entre seu mundo e, mais ainda: dizer o que sinto; sentir o que faço; fazer o que digo; dizer o que faço; fazer o que sinto; sentir o que digo; dizer o que digo; sentir o que sinto; fazer o que faço... por você (?) Como vou saber?

E o seu semblante, à janela, vislumbrando o bloco, na passarela, parece me apagar cada vez mais na multidão. Ficar assim, sendo um “mais um”, virando, então, homem comum, não quero não. E eu – tão coração de homem e alma de boêmio – Sou muito mais. A “fantasia”, ora, pois, deixaria pra trás, se houvesse a chance de escalar seus muros e chegar a você, como um bom rapaz. E não seria difícil invadir seu palco, mais clássico, mais moderno, mais contemporâneo... Mais... Mas... aqui “jazz” um roqueiro sem par, que viveu (em mundos) “blues” e se rendeu às baladas saturnais. Eu não sou de lá e não fui pra ficar. Voltei pra sambar. Pra te encontrar. E a essa altura, a boemia eu largaria, se fosse pra sua “Vida” partilhar.

O bloco vai passando e as cinzas da quarta-feira, chegando. Dois mundos diferentes, tão presentes em nosso existir, vão se afastando. Partirão sem demora a partir de agora. Míseros instantes me restam antes que você, de sua varanda, perceba o quanto ansioso estou em revê-la. Num outro carnaval, talvez, ou num salão distante, na esperança de ao menos uma vez, sem confete, serpentina ou embriaguez – minha bailarina preferida – valsar ao seu lado, no seu tempo-espaço. Porque eu – Boêmio – estarei sempre na passarela da vida, na rua, na avenida, no bloco a passar, olhando-a do alto de sua janela (quem sabe um dia) a me observar. Nem tudo na vida é fantasia; mas ao fim do carnaval, não se dispa da alegria, pois eu – um homem que sabe despir o boêmio – gostaria de me apresentar."

(Guilherme de Miranda Ramos, Maceió, AL.)

Outras palavras...
 
Aproveitando esse clima carnavalesco, decidi promover uma maior interação com blogs de amigos que tenho afinidades e mais, que admiro por seu conteúdo e proposta. Convidei então três deles para que pudessem desenvolver um texto, uma crônica, uma poesia etc, usando o tema carnaval, para que eu pudesse publicar nesse espaço já conhecido de todos: a 'quarta da poesia'.

Todos foram muito receptivos, abraçaram a idéia no ato. Lógico que isso não vai parar por aqui, mas como o mês só dispõe de quatro quartas, só pude convidar três (visto que a primeira fiz questão de publicar a crônica de Manoel Carlos). Contudo, vou logo avisando: vão se preparando para novos e breves convites!

...

Após as devidas explicações... peço a você: aplausos, por favor, para o primeiro texto recebido!

Guilherme Ramos, administrador do Blog PROSOPOÉTICO, que - modestamente - se auto-intitula um "Insone Sonhador", pra mim, representa um dos pilares da Cultura em Alagoas! Poeta, ator, escritor, produtor cultural e intenso em tudo que faz e acredita, Gui-lherme (como gosto de carinhosamente chamá-lo) desenvolve ainda um trabalho excepcional, em várias linguagens, à frente da coordenação de cultura do SESC-AL, disseminando conhecimento por onde passa com sua trupe, E MERECE NOSSO APLAUSOS TAMBÉM POR ISSO!

O texto com que nos agraciou hoje é simplesmente perfeito! Não poderia ter acertado mais na escolha... amigo, é mais do que eu esperava! Digo que, ao lê-lo, é possível até visualizar as coisas acontecendo, naquele exato momento, no mesmo  lugar onde cada um de nós, potenciais foliões, já pasamos!

Obrigado pela gentileza, meu querido! Para os que ainda não o conhecem, recomendo uma visita, urgente ao PROSOPOÉTICO, para que possam se aprofundar mais no universo desse maravilhoso escritor alagoano!

Beijo a todos!
Jr Vilanova.

8 comentários:

Wanderley Elian Lima disse...

Olá amigo
Parabéns ao Guilherme pelo texto e você por publicar.
Beijão

CRISTIANE disse...

Pelo que entendi e vi, Alagoas está cheia de grandes escritores, de pessoas sensíveis e talentosas!
Parabéns , Guilherme Ramos... com toda certeza farei uma visita ao seu blog!
Beijos aos dois.
Cris.

Valéria disse...

Oi Jr, gostei da crônica de Guilherme Ramos, deu até vontade de me apaixonar de novo...BeijooO

Ps: sou paulistana desde que nasci rs

.Lis disse...

Oi Junior
Sempre que me atraso gosto de voltar ao post anterior e esse nao podia mesmo perder! mais um alagoano que nao me deixa mentir,das Alagoas dos grandes escritores e poetas.
Lindo 'A bailarina e o boemio" ( como fui feliz naquele fevereiro...) adorei.
Ótima essa interaçao de blogs, vou lá conhecer o PROSOPOETICO , TÁ?
Abraços , Júnior

Dalva disse...

O Gui-lherme apresentou-se muito bem, com um texto belíssimo, que retrata perfeitamente a magia e a fugaciade das emoções que ficam a flor da pele nestes dias de carnaval! Muito bacana! Amei!

Bjs.

Guilherme Ramos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guilherme Ramos disse...

Obrigado pelos comentários! Obrigado mesmo!
Sobre "elogios": quando bens utilizados por quem recebe, ajudam o artista a criar mais e mais. Não se pode escrever apenas para si. É preciso compartilhar com outras pessoas.
Ah! E uma observação (na realidade houve um lapso de minha parte): o versinho no início (antes da bela imagem que Jr. anexou ao texto) não é meu. É do grande Adoniran Barbosa, música "Vila Esperança" (que pode ser conferida aqui (http://www.ramoorepoemas.com/ogui/vila.htm). usei-o como uma preparação para o texto (uma espécie de epígrafe) para dar o clima à história. Mas hoje, ao ler "A Bailarina e o Boêmio", pareço apropriar-me de tão bela citação. Peço perdão a todos.
Agora, posso ficar com a consciência mais tranquila. Rsssss...
Um beijo, um abraço e o desejo de um CARNAVAL de felicidades para todos e todas!

Cláudia disse...

Só tem feras por aqui hein?!!!!

PARABÉNSSSS Guilherme....LINDA POESIA, nos remete a essência do carnaval!!!

Guilerme é um artista!!!!!

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