sábado, 2 de outubro de 2010

A HISTÓRIA DE UM "MICO"


Hoje estou verdadeiramente desapontado com o ser humano. Motivo? A história de um mico!

Tudo começou quando vim morar nesse bairro afastado. Pacato, beira de mar, resquícios de mata atlântica enfeitando as redondezas... Pra mim, um verdadeiro paraíso em meio a agitação da nervosa capital! Todavia, como tal, possui o mesmo problema de todos os outros paraísos: homens por perto tentando estragar tudo - pelo menos tudo que estiver ao alcance de seus interesses mais egoístas!


Caseiro e discreto, não sou de muitos amigos quando chego num lugar. De início, prefiro relações respeitosas, porém formais. Proteger minha intimidade é algo inerente a minha vontade. Evito a porta aberta e tudo que possa ultrapassar a barreira do tolerável com novos vizinhos. Porém, um deles em especial, confesso, me conquistou mesmo sendo indiscreto e invasivo! Primeiro, apareceu na janela, desconfiado, olhando tudo do lado de dentro, como se fizesse um reconhecimento, geral e indiscreto, para assim decidir se aprovaria ou não o novo morador - nesse caso, eu! Uma ousadia sem precedentes. Foi assim nos dias que se seguiram após a minha chegada e logo começou a armar pouso toda manhã do lado da minha janela, ignorando inclusive o fato de ter alguém dormindo ali embaixo... Conversava em voz alta sem maiores constrangimentos... E eu? Mesmo com todos os direitos do mundo de esbravejar, estranhava o desaforo, mas curiosamente não me importava nem um pouco!


Numa dessas manhãs primaveris, escolheu a sombra do coqueiral ao lado pra discutir relação com a suposta namorada... Pois é, outra pessoa no meu lugar, repito, talvez não suportasse aquilo, dois já era demais. Ainda mais por que não se entendiam de jeito nenhum. Era uma barulheira só, um empurra-empurra danado... Momentos de tensão. Então resolvi intervir! Sou da paz! Apesar dos pesares, sentia que se gostavam e sabe como é... Eu, ali, completamente envolvido com aquele clima da morada nova... Era minha primeira boa ação desde que chegara.


Não é de hoje que escuto a sábia frase: “em briga de marido e mulher não se mete a colher”! Ainda cheguei a refletir sobre ela antes de tomar minha decisão... Mas, estávamos na primavera, os dias tão lindos, o sol ameno, tantas flores enfeitando a alameda... E além do mais, sou um geminiano sensível, ainda acredito no amor... Não contei história, peguei uma banana maçã perfumadíssima, amarelinha, me abaixei na janela e dei um assovio comprido, sugando o ar pra dentro da boca... Era mais ou menos assim que eles se comunicavam e eu queria chamar a atenção – só espero não ter dito nenhum palavrão na língua “macaquês”. Eles pararam imediatamente a discussão e procuraram de onde vinha o som apaziguador... Muito bonitinhos! Ao descobrirem, avistaram também a banana! Huuummm... Aí, depois da desconfiança inicial, foi aquela farra! Resolveram deixar o desentendimento de lado e tomar café da manhã juntos! E eu ali, abaixado, mas feliz da vida: Pôxa, eram eles os primeiros vizinhos que havia conquistado! Os primeiros que conheceram minha casa, enfim...


Dali em diante o casal me visitava frequentemente, começaram a simpatizar mais comigo, eu já não necessitava me esconder na hora de oferecer as bananas e com o tempo fui melhorando no meu “macaquês”! Por vezes traziam amigos, mas sempre respeitavam o meu espaço, coisa linda, todo mundo respeitando todo mundo, acho que pressentiam minha escolha. Passaram a ser meus vizinhos preferidos! Tanto que quando sumiram por um tempo relativamente longo, fiquei muito triste, achei uma falta de consideração aquilo... Será que meu sotaque ruim havia me traído? Teria eu dito algo deselegante ao ponto de se chatearem? Bem, desencanei... Mas as bananas permaneciam sempre lá, aguardando o retorno das visitas!


Nem bem "o outono" chegou e eis quem me aparecem novamente na mesma janela lateral, no mesmo coqueiro... Já não era sem tempo, já estava com saudades – mesmo! Ia começar tudo de novo, quer dizer, “ops”, algo estava estranho, digamos, diferente... Hum... Peraê... Putz, que gafe! Agora entendi tudo, aquela não era a namorada, era a esposa do meu amigo mico! E mais, trazia uma novidade colada ao corpo... Uma novidade que batizei de “miquinho”! A cara do pai! Os dois Já nem brigavam mais, ele estava super carinhoso, um pai de primeira, um companheiro exemplar! Aproveitei o ensejo e dei os parabéns a ele – em “macaquês”, obvio! Ele agradeceu, orgulhoso... “Pai coruja”, quer dizer, macaco!


Tudo ia muito bem até que outro bicho resolve aparecer nessa historia! O mais irracional de todos: O “bicho homem”. Acordei atordoado com uma barulheira infernal na rua, inclusive, um barulho num dialeto que eu conhecia bem... Saltei da cama, fui até a janela e me deparei com a cena mais triste desde que cheguei pra morar aqui no paraíso! Era meu amigo mico, lutando desesperado entre os fios da rua, para voltar a árvore de onde havia sido derrubado... Embaixo, o mais insensível dos animais, num ato extremamente irracional, atirava pedras pra cima, na tentativa de também derrubar o miquinho no chão! A mãe estava do outro lado da rua, em cima de um telhado, visivelmente transtornada, sem saber se ia ou se voltava... Mas firme no seu propósito de salvar a cria covardemente isolada dos pais naquela árvore... Era o início de uma tragédia familiar...


Gritei da janela: “Ei, amigo, que isso, vai matar o bicho?”... E o “filho de chocadeira”, já um pouco intimidado com a minha reação, respondeu: “Não, vou pegar pra criar”! Putz, pra criar? Como é que é? Criar? Que isso gente, o bicho tinha pai, tinha mãe e os cuidados que necessitava naquele momento! Com que direito aquele cidadão ia desfazer aquela família? Sem falar que se o animal realmente caísse de uma altura daquelas, ninguém mais poderia acabar de criá-lo... Morreria! Já para o atirador de pedras, ficou claro: melhor morto que livre!


Aquela cena era um enorme absurdo pra mim... Era a primeira vez que eu presenciava, em tempo real, a ação nociva do homem para com a natureza. Naquele momento pensei em tanta coisa além do desespero do meu amigo mico... Me veio a mente as manchetes do noticiário passado sobre o crescente desmatamento da Amazônia e de todas as outras florestas mundo á fora, da poluição dos rios e oceanos, da escassez da água potável num mundo que encontra-se em pleno desequilíbrio, das catástrofes, das espécies em extinção comprometendo a cadeia alimentar entre os bichos e entre nós, “humanos”... De certa forma, aquele infeliz, no auge de sua ignorância com todas aquelas pedras na mão, alheio ao sofrimento daqueles bichos, era também o responsável em potencial por todos aqueles problemas da humanidade! Certamente estava entre os mesmos – entre milhões – que por descuito ou por maldade não recolhem seu lixo na praia, que jogam porcarias pelas janelas dos ônibus, dos carros e entopem bueiros, que fazem fogueiras irresponsáveis em terrenos baldios, que jogam entulhos nas ruas e auxiliam na proliferação doenças, que lavam calçadas com mangueiras indiferentes a um futuro próximo de provações... Proliferam mosquitos em casa através da falta de compromisso com o coletivo, que não devolvem o que pegaram emprestado, dão maus exemplos aos filhos - deles e dos outros -, não dão lugar aos idosos nos coletivos, são patrocinadores da violência... Parece um exagero, mas não é. Existe uma reflexão íntima e uma mudança de hábitos que precisa ser colocada em prática logo, urgentemente, antes que não exista mais tempo de consertar o que está às avessas. É através de pequenas atitudes do dia a dia que conseguiremos evoluir como cidadãos, como seres humanos. Precisamos assumir comportamentos responsáveis com o planeta e com o nosso próximo também – seja ele um semelhante, planta ou bicho, não importa. Estamos tirando o lugar de muitas coisas por conta do nosso egoísmo e, sinceramente, não temos esse direito.


“Meu amigo mico” não merecia aquilo. Quando desci as escadas pra tentar argumentar com o cruel destruidor de famílias alheias, o pior já havia acontecido. Ao que tudo indicava, ele havia conseguido o que queria. Ia "criar" o “miquinho” dentro de uma gaiola ou amarrá-lo numa corrente para poder olhá-lo de vez em quando... até enjoar! E quando o bicho, ainda arisco, o morder, gritar, defecar em lugar errado, provavelmente apanhará, pra aprender quem manda em quem agora! E daqui a um tempo, quando a casa estiver cheirando insuportavelmente a fezes de “sagüi”, ele decida expulsá-lo, jogando em qualquer lugar para morrer por falta de experiência, pela ausência de ensinamentos de como manter-se vivo.


Os pais, coitados, desesperados, grunhiam um canto triste em frente a janela do primeiro andar. O pequeno e infeliz miquinho deveria está trancafiado lá dentro, não havia mais nada que eu pudesse fazer. Pensei em oferecer dinheiro para que soltasse o bicho, mas as portas e janelas fechadas não possibilitavam diálogo.


Os gritos dos pais prosseguiram por toda à tarde, insistentemente, inconformadamente, bravamente. Ao tempo que me entristecia, também me emocionava... Eles simplesmente não desistiam dos seus! Mais uma grande lição! Outros componentes do bando, solidários, iam se juntando ao coro, talvez na esperança de sensibilizar o outro “animal” que estava do lado de dentro da janela. O causador de todo aquele inconveniente. Em vão. Não havia mais nada o que fazer... O homem, mais uma vez, havia conseguido acabar com a paz do paraíso. A mim, restava apenas recuperar-me do trauma.


Sei não, mas acho que nunca mais haverá clima para as visitas do meu amigo... Provavelmente perdi os vizinhos mais legais que conheci até hoje!



Apolinário Júnior.


Esse post, escrevi em 2009  e hoje, ás vésperas das eleições, resolvi reposta-lo... Que em nossas reflexões para o 03 de outubro, o nosso entorno e o descaso atual com a nossa biodiversidade não fiquem de fora!

CUIDADO COM O MICO AMANHÃ, HEIN!

Beijos saudosos.
Jr Vilanova.

7 comentários:

Angélica disse...

Oi Jú que história emocionante.Cada dia vc se supera, já pensou em escrever um livro. Vc é uma das poucas pessoas que conseguem me emocionar. Bjs

Manuela Azevedo disse...

Jú meu querido amigo,
vim aqui te desejar um bom fim de semana, e rir com suas histórias maravilhosas!
E no entanto, me deparo com esse triste acontecimento com seus amigos...
Sem palavras meu amigo para comentar...

Um grande beijo!

NANDITA CAYMMI disse...

tenho andado sem net, agonia da porra, por isso sumi de comentários... rs!!!!
mas acho q agora eu volto. bjosssss

Nalvinha disse...

Poxa Juninho, que acontecimento triste...
Sempre o "bicho homem"!!!

bjoo

Anônimo disse...

Vc não faz idéia da minha angustia ao ler isso, principalmente por tê-lo conhecido pessoalmente a tão pouco tempo. Mas no final do post vi q já faz algum tempo o acontecido, mesmo assim me preocupei com ele e com a realidade da sua mensagem. Que eles continuam bons vizinhos,preocupados e frequentadores da sua casa sei q ainda são, mas pergunto como é q eles estão? Como é q ELES ou NÒS ficaremos?????

Sandro Omena disse...

Querido Popó!
Este seu post nos permite uma reflexão profunda do bicho mais desumano e covarde da terra, o ser humano!Porém fico muito feliz e satisfeito em saber que seres humanos como você e tantos outros contribuam para que situações como essa se modifiquem através desse grito de alerta. Sua sensibilidade é ímpar, e com certeza ameniza e muito as injustiças com a nossa biodiversidade. Parabéns pelo texto, pela escrita e mais uma vez pela sua sensibilidade maravilhosamente mostrada.
Grande beijo

Janaina disse...

Juninho meu lindo!!!!!!!!
Demoro, demoro e como demoro a ler o que escreve neste blog maravilho (que inclusive faço a maior zuada para que todos visitem kkk), mas leio rsss
E este foi o que me chamou atenção porque inicialmente achei que falava do bicho homem rsss até entender (deixa, isto é resquicios da tinta loira -NEEEUUU Ñ TEM ND HAVER COM VC KKK -). Esta é a sua amiga Jana Maravilhosa do Arraso kkk Mas voltando ao post, adorei! E sabe de uma coisa, NUNCA MAIS VI estes bichinhos e desde pequenas sempre me trouxe o ar da graça, da expontaneidade e mais do que isso, da "cara de pau" (e eles têm rs?!) destes bichinhos maravilhosos... e até o homem tomar "conta" em si do que tem feito, já será Jr... Sinto falta enormemente do barulho de alguns telhados, arvores em que estes bichinhos faziam a "bagunça"... e como a esperança é a ultima que morre, ainda acredito numa certa ponderaçao a esta agressão atual que têm feito a natureza.
Ah, e parabéns pelo que escreve!!!
Adoro teu estilo da expressão de todo e qualquer assunto!!!!!!!!!
bjão e um forte abraço!!!!!!!

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